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Içado da Bandeira do Reino da Galiza o 25 Julho, Co. Barbanza, GalizaDatas de Içado
de Bandeira Galega

A Bandeira nas celebrações comemorativas nacionais


Conteúdos nesta seção:
» Que é o "Dia de Içado da Bandeira"?
» Introdução à tradição de bandeira nos países de Europa
» Proposta de datas de içado da Bandeira Galega

Que é o "Dia de Içado da Bandeira"?

Os dias de Içado da Bandeira são datas festivas ou comemorativas nas que a bandeira de um país é içada oficialmente pelas instituições públicas e pelos cidadãos em sinal de celebração, memória, ou respeito. Internacionalmente, estes dias se conhecem com o nome de "Flag Flying Days". Os exemplos mais comuns de datas de içado da bandeira são os dias nacionais, as festas de significação cultural ou de origem religiosa, e a celebração de armisticios ou de tratados de paz.

Todos os países do mundo regulam por Lei, em maior ou menor profundidade, os usos públicos e privados de seus símbolos nacionais. O regulamento protocolar do uso e tratamento da bandeira nacional pode incluir instruções precisas sobre como içar corretamente a bandeira, como guardá-la, quando içá-la, em que ocasiões, em que posições, etc. Alguns exemplos publicados em internet de países que regulam detalhadamente o uso de sua bandeira são Austrália, Canadá, ou Finlândia. Em Galiza, a definição e os usos da bandeira galega estan regulados pela Lei 5/1984 de Símbolos de Galiza do 29 Maio 1984.


Introdução à tradição de içado da bandeira nos países de Europa

No mosaico cultural europeu, os costumes e tradições a respeito do uso e legislação dos símbolos próprios de cada nação são muito variadas e mudam de país a país. Dois exemplos ilustrativos de diferentes atitudes e tradições culturais a respeito da bandeira são os países da região escandinava e os países da região celtoatlántica. Os primeiros, são um típico caso do içado da bandeira como verdadeira tradição festiva de colorido e participação nacional, eficientemente regulada pelos poderes públicos e popularmente estendida entre a cidadania. Os segundos pertencem ao caso tipico da Galiza, onde o contexto regulatório é menos preciso e a participação cidadã é flexível tanto nas formas como nas ocasiões.

Rapazes em traje tradicional ondeando a bandeira durante a celebracão do 17 Maio, Dia Nacional da NoruegaNos países escandinavos existe uma muito popular e típica tradição de içar a bandeira nacional num número de dias concretos do ano, que coincidem com festas nacionais ou festividades comemorativas. Nessas datas especiais, tanto os poderes públicos como os cidadãos içam sua bandeira por todo o país, em edifícios e lugares públicos, nas ruas, e nos jardins das casas. Este costume se estendeu pelos países nórdicos no final do século XIX e se converteu numa tradição nacional comum de Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia, Islândia, ilhas Feroe e Åland. Em cada um destes países existe um calendário oficial de dias de içado da bandeira -que coincidem com festas nacionais e estan fixados por Lei- no que a bandeira nacional é ondeada em todas as instituições e edifícios públicos (sés do governo e da administração, escolas, bancos, teatros..). A estes dias de içado oficial da bandeira se somam outras datas especiais que por costume e tradição são celebradas pela cidadania (dias de poetas, de festividades religiosas ou civis). Outro uso habitual da bandeira nacional nos países escandinavos é o de acompanhar a celebração de cualquer ocasião especial de caráter privado; por exemplo, em Dinamarca, é comum de pôr a bandeira no jardim da casa quando se celebram aniversários ou casamentos. Nas ilhas dos arquipélagos e lagos de Suécia e Finlândia se iça a bandeira para indicar que há gente na casa. Em Noruega, no dia de sua festa nacional, o 17 de Maio, gente de todas as idades levam uma pequena bandeira, na mão, na jaqueta, ou em laço tricolor

Supporters escoceses ondeando bandeiras nacionais de Escócia e bandeiras históricas do Reino de EscóciaNos países celtoatlánticos de Irlanda, Escócia, Galiza, Gales ou Bretanha existe uma tradição informal e menos regulada de uso de bandeiras nacionais. Contrariamente ao exemplo escandinavo, não existe entre a cidadania o costume popular de içar a bandeira num numero regular e determinado de dias do ano, nem de ter um mastro no jardim da casa para ondear a bandeira em ocasiões especiais. Também, fiéis ao famoso individualismo céltico, são tipicamente normais os casos nos que os localismos acabam levando mais protagonismo do que a identificação unitária com uma simbologia comum acima de qualquer rivalidade intercomarcal. Partindo destes condicionantes culturais, pode-se ainda assim afirmar que a tradição cidadã de uso da bandeira nos países celtas existe, e se manifesta principalmente na celebração ocasional de festivais desportivos, folclóricos, ou reuniões reivindicativas. Nos últimos anos começaram também a surgir outros contextos nos que cada vez é mais habitual o uso da bandeira para dar um valor adicionado de caráter histórico a velhos castelos, paços ou museus, e que por extensão se aplica em certos casos a outros negócios de interese turistíco como alojamentos de campismo ou turismo rural. Além destes usos nos variados contextos folclóricos e históricos, há que sublinhar os encontros desportivos, que juntam sem dúvida à maior concentração de bandeiras nacionais em eventos de massas. É costume habitual entre os supporters de fútebol celtoatlánticos de levar bandeiras nacionais ao estádio para dar cor e apoiar à equipa local. Estas bandeiras podem ser tanto a bandeira nacional oficial como outras bandeiras nacionais alternativas, históricas ou comarcais. Um exemplo disto são os partidos da seleção escocesa, onde é normal que um aficionado leve a bandeira oficial de Santo André e outro leve a bandeira real dos monarcas escoceses. Outro exemplo mais são os encontros da seleção irlandesa, onde muitos supporters vão a apoiar à equipa nacional ondeando suas bandeiras comarcais. Esta prática de exibir várias bandeiras para identificar-se com um único pais -que seria excepcional e incorreta no protocolo tradicional de bandeira dos países escandinavos- é absolutamente normal e corrente na tradição cultural dos países celtas, onde os cidadãos utilizam livre e flexivelmente bandeiras diferentes como expressão individualizada de preferências pessoais de símbolos.


Proposta de Datas de Içado da Bandeira Galega

Cada país tem seus dias nos que é tradicional içar a bandeira, tanto pelas autoridades públicas como por aqueles cidadãos a título individual que assim o desejem. As datas de içado da bandeira são normalmente festas nacionais, celebrações de origem religiosa ou comemorações militares. Nos países escandinavos, por exemplo, os dias oficiais de içado da bandeira são anunciados cada ano pelo governo e publicados em seus websites e nos calendários e almanaques. Em Galiza não há dias oficiais de içado da bandeira como em Escandinavia, ainda que de um modo parecido o Governo Galego publica todos os anos o calendário de trabalho e festas da Comunidade Autônoma num decreto publicado no Diário Oficial de Galiza. Baseados no critério de comemorar as festas oficiais já existentes e outras não-oficiais que também fazem parte popular da história e cultura galega, sugerimos a seguir uma proposta de datas de içado da Bandeira Galega (ordem cronológica):


Festividades e comemorações nacionais:
Maio 17 - Dia da Língua e das Letras Galegas.
Junho 28 - Primeiro Estatuto de Autonomia de Galiza, 1936.
Julho 25 - Sant-Iago, Dia Nacional de Galiza.
Agosto 17 - Dia dos Mártires Galegos.
Setembro 17 - Coroamento de Afonso Raimundes Rex Gallaeciae, restauração da Dinastia Real Galaica.
Dezembro 21 - Segundo Estatuto de Autonomia de Galiza, 1980.

Festividades religiosas:

49 dias antes de Páscoa - Entroido ou Carnaval.
Primeiro domingo depois da lua cheia seguinte ao equinócio de primavera - Páscoa ou Sexta-feira Santa.
Maio 1 - Os Maios ou festival vegetal.
Junho 24 - San Xoán ou São João.
Novembro 1 - Dia de Todos os Santos.
Novembro 11 - São Martinho.
Dezembro 8 - Imaculada Conceição.
Dezembro 25 - Dia de Natal.

Festividades civis:

Janeiro 1 - Dia de Ano Novo.
Maio 1 - Festa do Trabalho.

Comemorações militares:

Janeiro 14 - Acolhida galega dos refugiados irlandeses da Batalha de Kinsale, 1602.
Abril 3 - Batalha de Nájera, vitória da aliança atlântica sobre a coligação mediterrânea, 1367.
Abril 26 - Batalha de Cacheiras e Mártires da Liberdade, 1846.
Junho 8 - Batalha de Ponte San Paio: Libertação da Galiza da ocupação francesa, 1809.
Setembro 1 - Batalha de Tamarón, destronamento da dinastia real galaica, 1037.
Dezembro 17 - Execução de Pardo de Cela, começo dos chamados Séculos Escuros, 1483.


Significação das festividades e datas de comemoração nacional
Sant-Iago, Santo Padrão de Galiza
Julho 25 - Sant-Iago, Dia Nacional da Galiza

A tradição do apóstolo Sant-Iago em Galiza começou no século IX, quando o culto à antiga capela e lugar de repouso de Prisciliano na Arca Marmórica foi substituído e reconducido para um santo de prestígio mais conforme com os ditados da Igreja de Roma. A data do 25 Julho como dia de Sant-Iago foi fixada no Martyrologium de Usuard de Saint-Germain-dês-Prés, escrito ao redor do ano 865. No século XII o mais alto representante da Igreja Galega, o Arcebispo Diego Gelmires, promocionou internacionalmente Sant-Iago numa magistral estratégia de marketing que converteua Galiza num destino de peregrinação mais popular que Roma ou Jerusalem. Desde aquela, o 25 Julho, Dia de Sant-Iago, começou a celebrar-se como a data mais significativa do calendário galego. No ano 1120, Diego Gelmires esperou até o 25 Julho para anunciar solenemente as bulas papais que elevaram a Santiago de Compostela à casta de Sé Metropolitana com autoridade eclesiástica sobre toda a antiga Galécia. No ano 1386, o Duque de Lencastre esperou até o 25 Julho para desembarcar em Corunha e apresentar-se ante a população como legítimo soberano do Reino de Galiza. Depois do parêntese dos cinco chamados Séculos Escuros (s.XV-s.XX), o 25 Julho, Dia Nacional de Galiza, foi recuperado e organizado anualmente pela organização cultural Irmandades da Fala desde o ano 1920. Durante as décadas escuras da ditadura militar franquista, o 25 Julho, Dia Nacional de Galiza, continuou celebrando-se pelos galegos exilados por todo o mundo. O 25 Julho 1948, o Presidente do Conselho de Galiza (Governo de Galiza) no exílio, Afonso Daniel Rodríguez Castelao, pronunciava seu famoso e emotivo discurso "Alba de Groria" no Centro Galego de Buenos Aires. A celebração dos atos do 25 Julho como Dia Nacional de Galiza em Santiago de Compostela esteve proibida pelas autoridades espanholas até vários anos depois do final da ditadura. Com mais de um milênio de história, o 25 Julho é o Dia Nacional de Galiza, e como tal, é a principal data do ano para ondear as bandeiras galegas ao vento
Rosalia de Castro, autora de "Cantares Gallegos"
Maio 17 - Dia da Língua e das Letras Galegas
Em 1863 Rosalia de Castro publicava seu livro "Cantares Gallegos", considerado como a primeira grande obra da literatura galega contemporânea, e que representou um importante progresso no Rexurdimento (resurgir) cultural da Galiza. No ano 1963, coincidindo com o centenário da publicação dos "Cantares Gallegos", a Real Academia Galega decidiu dedicar um dia do ano para honrar ao idioma e aos intelectuais galegos. Desconhecida a data exata de publicação de "Cantares Gallegos", escolheu-se o 17 Maio como data a celebrar por ser naquele dia quando Rosalía de Castro lhe dedicou um exemplar de seu livro a outro poeta, Fernán Caballero. O Dia das Letras Galegas foi acolhido imediatamente como festa nacional por toda a sociedade galega, desde os círculos intelectuais até os ambientes populares. Desde o ano 1963, todos os 17 Maio, Dia das Letras Galegas, os galegos celebramos nossa língua desde a memória da vida e obra de um intelectual galego diferente.

I Estatuto de Autonomia de Galiza, 1936 Junho 28 - Primeiro Estatuto de Autonomia de Galícia, 1936
O 28 Junho 1936 Galiza organizou um Referendum democrático para decidir seu futuro econômico, político e cultural. Naquele tempo, todo qualquer assunto relativo a Galiza era decidido em Madrid. O Referendum, resultado da iniciativa política e de anos de trabalho do Partido Galeguista, perguntava-lhe aos galegos se desejavam governar-se a eles mesmos autonomamente como país no cadro de um estado espanhol federal. De um censo total de 1.343.135 votantes, 993.351 galegos e galegas votaram "SI" a um Estatuto de Autonomia para Galiza, frente a 6.161 votos contrários. O 28 Junho, os galegos decidiam democraticamente autogovernarse com e desde instituições políticas galegas, no cadro de um estado espanhol federal.

Agosto 17 - Dia dos Martires Galegos

Um mês depois do voto dos galegos pela Autonomia de Galiza em 1936, o militar Francisco Franco tentava um golpe de estado e, com o apoio de aliados como Adolf Hitler e Benito Mussolini, começava uma guerra contra o governo constitucional eleito democraticamente pelos espanhóis. Na Galiza, as atrocidades cometidas pelos golpistas atingiram uma magnitude equivalente a massacres similares que são hoje rememoradas em outros países do mundo como genocídio cultural. Dia da Galiza Mártir, rememorando o assassinato de Alexandre Bóveda, 17 Agosto 1936As vítimas deste massacre foram os galeguistas, de esquerdas e de direitas, seguidos de outros militantes do sindicalismo, agrarismo, e de movimentos sociais progressistas. Na Galiza, estas vítimas non morreram lutando em nenhuma frente de nenhuma guerra. Foram assassinadas seletivamente, nome por nome, casa por casa, de noite e de dia, levados a ponta de pistola a valetas e a pelotões militares por causa da sua galeguidade. Segundo o professor da Universidade de Santiago Ramón Maiz, o número de galegos que os militares e milícias golpistas passaram pelas armas foi entre 27.000 e 30.000; homens e mulheres, dirigentes e militantes do galeguismo, sindicalismo e da intelectualidade galega. A prática totalidade dos redatores do Estatuto de Autonomia de Galiza foram executados. Os mais dos 3 000 militantes do Partido Galeguista foram executados. Muitos milhares de pessoas mais conseguiram fugir, somando-se ao êxodo em massa de galegos às Américas: prefeitos, políticos, professores, advogados, catedráticos, servidores públicos, escritores, artistas... O extermínio e desterro desses milhares de cérebros, produtores de pensamento e construtores de iniciativas, foi proporcionalmente um número demasiado grande para um país do tamanho da Galiza. Esta "limpeza ideológica", comparável em número às realizadas na ex-Iugoslávia, destruiu vidas, destruiu famílias, e destruiu um país que se encontrava numa idade de ouro cultural e criativa. Um daqueles milhares de galleguistas assassinados pelos franquistas foi Alexandre Bóveda, Secretário de Organização do Partido Galeguista. No amanhecer do 17 Agosto 1936 o levaram ao Monte daCaeira, amarraram-no a um pinheiro, e lhe colaram quatro tiros. Alexandre Bóveda tinha 33 anos, estava casado e tinha cinco filhos. Como tantos outros galeguistas, era cristião católico. Despues de sua morte, os franquistas mandaram cortar o arbol no que Bóveda habia sido assassinado, porque os pontevedreses começavam a levar cachinhos da árbore como relíquias. Rememorando o assassinato de Alexandre Bóveda, desde o ano 1942 os galeguistas no exílio instituíram o dia 17 Agosto como Dia dos Mártires Galegos, em homenagem a todos os homens e mulheres que na milenar história desta nação foram assassinados ou morreram por defender a Galiza.

Setembro 17 - Coroamento de Afonso Raimundes Rex Gallaeciae, restauração da Dinastia Real Galaica, 1111

Afonso Raimundes, Rex Gallaeciae (1111-1157) no tombo da Catedral de Santiago, GalizaDurante séculos, o Reino da Galiza tinha sido o mais poderoso de todos os reinos cristãos do sul de Europa. Os monarcas galaicos dos reinos da Galiza e León, o território da antiga Gallaecia, eram escolhidos pela nobreza galega, eram reis galegos que falavam em galego, educavam-se na Galiza, governavam em galego, e eram enterrados na Galiza. Isto mudou trás da Batalha de Tamarón de 1037, quando o rei Vermudo III da Galiza e León foi derrotado por Fernando I de Castela, e como conseqüência uma forasteira dinastia real navarro-castelhana se fez com o trono da Galiza e Leão durante meio século. Mas nem Fernando I de Castella nem seu filho Afonso VI foram aceitados como monarcas pelos galegos, e em 1085 o Reino da Galiza rebelouse contra sua autoridade. Os galegos foram derrotados pelo monarca castelhano e castigados severamente. A máxima autoridade da Igreja Galega, o Bispo de Santiago, Diego Pelaes, mentor e predecessor de Diego Gelmires, foi castigado com o exílio, acusado de conspirar para proclamar como Rei da Galiza a Guilherme I 'O Conquistador' da Inglaterra. Trás desta rebelião, Afonso VI aplicou o provérbio "dividir é vencer", partiu o Reino da Galiza em duas metades, e para evitar problemas maiores delegou em 1090 o governo da Galiza norte ao Conde Raimundo de Borgoña, e o governo da Galícia sul a seu primo Henrique de Borgonha. A nobreza galaica aceitou imediatamente aos dois condes da Casa de Borgonha. As boas relações entre galaicos e burgundios já vinham de fazia muito tempo, desde a aliança dos dois estados no século VI, quando o rei Gontram de Borgonha enviara tropas para ajudar ao rei Andeca da Gallaecia na guerra contra os hispanovisigodos. Cinco séculos mais tarde, os burgundios voltavam à vida política galaica. O Conde Raimundo de Borgonha, novo governante do Reino da Galiza, recebeu a crucial amizade e garantia do Conde Pedro Froilaz de Trava, o mais poderoso nobre galego. Em correspondência, Raimundo confiou-lhe ao Conde Froilaz a educação e custódia de seu filho, o príncipe Afonso Raimundes. Raimundo de Borgonha governou o Reino da Galiza durante duas décadas, com o apoio da nobreza galaica. Falecido no ano 1107, o burgundio foi enterrado com honras de monarca no Panteão dos Reis Galegos da Catedral de Santiago. A Galiza precisava um novo Rei e esse rei tinha que ser galego. Durante todos aqueles anos, o jovem Afonso Raimundes fora educado para ser rei pelo mais respeitado nobre do Reino da Galiza, o Conde Pedro Froilaz de Trava, e pela máxima autoridade da Igreja Galega, o Bispo Diego Gelmires. A nobreza e a Igreja galaica procuraram aliados no exterior para restaurar uma dinastia galega no trono da Galiza. Um representante da poderosa Igreja de Cluny foi á Galiza a negociar com Gelmires o apoio de Borgonha à estratégia galega. O enviado de Cluny era o mesmíssimo Arcebispo burgundo Guy de Vienne -posteriormente Papa Calixtus II- irmão do Conde Raimundo e tio do príncipe Afonso Raimundes. Galegos e burgundios tinham uma agenda muito importante. Os galegos queriam recuperar sua hegemonia dinástica nas casas reais da Galiza e León. Os de Cluny apoiavam a causa de um monarca galego de dinastia burgundia. E assim se fez o 17 Setembro 1111. Numa glamorosa cerimônia na Catedral de Santiago, ante os olhos de nobres e notáveis chegados de todas partes do Reino da Galiza, o príncipe Afonso Raimundes era coroado Rei Afonso VII da Galiza pelo bispo da Igreja Galega, Diego Gelmires. O Conde Froilaz e o Bispo Gelmires tinham boas razões para desfrutar da sidra e do vinho durante o banquete real, como conta a História Compostelana: graças a eles, o Reino da Galiza recuperara a sua dinastia real galaica. Ainda mais, em 1135 Afonso Raimundes fazia-se coroar Imperador no trono de Leão com a presença da nobreza e da Igreja galega. A Galiza voltara a recuperar sua predominancia politica, colocando a um rei galego como Imperador de territórios desde o Atlântico até o Ródano, numa extensão territorial que nenhum rei galaico atingira desde o Galliciense Regnum. O 17 Setembro 1111, com Afonso Raimundes, restaurava-se a dinastia real de reis galegos que se educavam na Galiza, governavam em galego e se enterravam na Galiza, uma dinastia que continuou com os reis Fernando II da Galiza e León (1157-1188), Afonso IX da Galiza e León (1188-1230), e Fernando III da Galiza e León (1230-1252).

II Estatuto de Autonomia de Galiza, 1980 Dezembro 21 - Segundo Estatuto de Autonomia de Galícia, 1980

O 21 Dezembro 1980, quase meio século depois da aprovação do Primeiro Estatuto de Autonomia de Galiza, os galegos foram chamados a um novo referendum para confirmar se desejavam governar-se com instituições políticas próprias. O nível de Autonomia a referendar era muito limitado comparado com o aprovado em 1936, e as forças políticas com representação em Galiza se mostraram fortemente divididas sobre a nova proposta de Estatuto. Pese a esta confusão social, que se traduziu numa alta percentagem de abstenção, o 21 Dezembro o 73% dos votantes disseram "SI" a um II Estatuto de Autonomia que confirmou a Galiza como 'nacionalidade histórica' e que a dotou de um Parlamento legislador, de um Governo executivo e de um Tribunal de Justiça que desde então governam Galiza desde Galiza.



Significação das datas e festividades religiosas e civis

Cruz celta na Catedral de Santiago de CompostelaFestividades religiosas:
Em todos os países de Europa existem uma série de datas no calendário marcadas anualmente como dias feriados. Originalmente, essas datas correspondiam com celebrações religiosas cristãs ou cristianizadas. Nos tempos atuais, uma parte da população galega ainda celebra estas festas desde sua dimensão religiosa, enquanto para outra parte da população a data é unicamente interpretada como um dia de lazer no calendário. Independentemente das crenças religiosas de cada um, os países com tradição de içado de bandeira tomam a festividade do dia como ocasião para adicionar mais cor à data içando a bandeira nacional. As principais datas no calendário religioso galego (ritos cristão-católico e céltico) são: Entroido ou Carnaval, de carne vale, última oportunidade de excessos carnais e festejos profanos antes do período triste da Quaresma (data variável, celebrada 49 dias antes da Páscoa), Páscoa ou Sexta-feira Santa, ressurreição do Cristo (data variável, celebrada no primeiro domingo depois da lua cheia seguinte ao equinócio de primavera); Os Maios ou festa vegetal da fertilidade (1 Maio); São João ou solstício de verão (24 Junho); Dia de Todos os Santos ou também Samain, Os Maiosdia dos mortos (1 Novembro); São Martinho, equinócio de outono e de festas agrárias como a Matança do porco (11 Novembro); Imaculada Conceição ou imunidade da Virgem María do pecado original (8 Dezembro); Dia de Natal ou nacimento do Cristo (25 Dezembro). Estas festas religiosas coincidem em data com o calendário ditado pela Igreja Católica Romana, que representa o rito cristão maioritário entre a população galega. Algumas destas festividades compartilham uma dupla significação cristã e não-cristã. A significação religiosa não-cristã destas festividades é habitualmente referida como pagã ou céltica, e também coincide em data com outras antigas tradições conservadas em outras partes de Europa por exemplo Os Maios (celebrados também em Grã-Bretanha e Irlanda); os fogos de solstício ou de São João (celebrados também em Grã-Bretanha, Irlanda e Escandinavia); Todos los Santos ou Samain, (todavia conservada na Galiza, famosa por ser levada pelos irlandeses à América e desde ali voltar reconvertida em festa carnavalesca do Halloween); o equinócio e fim do calendário agrícola em São Martiño (também celebrado em Escandinavia, Irlanda e Grã-Bretanha).

Festividades civis:
Junto às anteriores celebrações de origem religiosa, o calendário celebra também um número de ocasiões civis, sendo as mais importantes o Dia de Ano Novo (1 Janeiro) e a Festa do Trabalho (1 Maio). O primeiro é óbvio, por razões práticas, muito pouca gente estaria em condições de ir trabalhar imediatamente depois dos excessos cometidos na noite de festa anterior. A segunda festividade, o 1 Maio, é uma celebração dos direitos civis de todos os trabalhadores, celebrada em maior ou menor oficialidade por toda Europa e outros países do mundo.


Significação das datas de comemoração militar

Setembro 1, Batalha de Tamarón, destronamento da Dinastia Real galaica, 1037:
Rei Vermudo II de Galiza e LeãoO Rei Vermudo II de Galiza e Leão e seu vassalo o Conde Fernando I de Castela tinham uma disputa irreconciliável sobre os límites territoriais de seu condado castelhano. A guerra entre rei e vassalo estourou no ano 1037 e em setembro os dois exércitos se enfrentavam na Batalha de Tamarón, em terras castelhanas. Conservam-se poucos escritos históricos com detalhes desta batalha, que algumas fontes situam no 1 de setembro e outras dizem que três dias mais tarde. Fernando de Castela contava com a ajuda militar de seu aliado político, o rei García de Navarra. Segundo as crônicas castelhanas de Silos, "Ya los dos ejércitos se miraban retadores con las armas deslumbrantes, cuando Vermudo, lleno de audacia y de osadía, clava el aguijón de la espuela a su famoso caballo Pelagiolo y, ansioso de lucha, parte con rápida carrera, tensa la lanza, entre las apretadas filas del enemigo; pero la muerte acerba, a quien ningún mortal puede vencer, le echa por tierra en aquel impetuoso galopar, mientras el feroz García y Fernando arrecian en la lucha, cayendo en torno a él siete de sus más fuertes guerreros". A dinastia real galaica de Galiza e Leão recebeu uma importantíssima derrota. Morto Vermudo, uma nova dinastia navarro-castelhana se apropriou do trono de Galiza e Leão. Em princípio, isto poderia parecer somente um pequeno acidente histórico, já que menos de um século mais tarde os galegos voltavam a recuperar seus tronos de Galiza e Leão com Afonso Raimundes. Mas a entrada daquela dinastia navarro-castelhana nos reinos de Galiza e Leão depois da Batalha de Tamarón teve graves repercussões posteriores. Aplicando a fórmula "dividir é vencer", a forasteira monarquia navarro-castelhana partiu inteligentemente ao Reino de Galiza em dois, separando o condado galego de Portugal do resto do reino e debilitando assim as possibilidades de reação militar. Ainda bem, os galaicos demoraram menos de um século em endereçar a situação, desalojando à dinastia navarro-castelhana e restaurando sua tradicional hegemonia política nos tronos de Galiza e Leão para os seguintes três séculos. Mas a Batalha de Tamarón foi a grande derrota que permitiu que pela primeira vez na história um monarca castelhano se sentasse no trono da Galiza, e causou que parte da Gallaecia bracarense, o condado de entre Douro e Minho, primeira capital do Galliciense Regnum, hoje esteja separada do resto da Galiza. O 1 Setembro 1037 foi uma data triste que hipotecou a evolução histórica da Galiza e que merece ser rememorada.

Abril 3 - Batalha de Nájera, vitória da aliança atlântica sobre a coligação mediterrânea, 1367:
Durante quase cinco séculos, os nobres galegos tinham dominado a dinastia monárquica de seus reinos e se tinham rebelado quando seu monarca não era o que queriam. Aproveitando as Guerras Sucessórias ao trono de Castela de 1366-1371, o Reino de Galiza apostou por voltar a pôr um monarca 'da casa' para retomar o controlo político que tinha começado a perder durante esse século. A aposta monárquica 'da casa' dos galegos foi Pedro I, apelidado 'O Cruel', filho do rei Afonso XI e da princesa Maria de Portugal, e primo do Príncipe de Gales. A opção dos castelhanos foi Henrique 'O Bastardo', também conhecido com os nomes de 'Henrique II de Castela' ou 'Henrique de Trastamara' (o título dos grandes condes galegos de Trava-TrasTamara passou a ser coleção da monarquia castelhana no século XIII ao morrer sem herdeiros o ultimo dos TrasTamara, Roi Gomes). Apoiado pelos galegos, o Rei Pedro I Batalha de Nájera, 3 Abril 1367reinou sobre Galiza, Leão e Castela desde 1350 até que seu irmão ilegítimo Henrique 'O Bastardo' usurpou o trono no ano 1369, ajudado por seus vasalos castelhanos em coligação com aragoneses, catalães e franceses. Pedro I se refugiou então no Reino de Galiza, escolhendo a hospitalidade dos condes galegos mais importantes da época, os Castro, desde onde prepararam o contra-ataque militar formado pela aliança atlântica de tropas galegas, portuguesas e britânicas. No dia 3 Abril 1367 a aliança atlântica do Rei Pedro I derrotava à coligação mediterrânea de Henrique de Castela na Batalha de Nájera. O monarca dos galegos retomou assim o controlo do reino de Castela durante dois anos, até que 'O Bastardo' esfaqueou e matou a traição ao Rei Pedro I em seus aposentos no 23 Março 1369, usurpando novamente o trono castelhano. Assassinado o Rei Pedro I, os galegos decidiram proclamar rei a Fernando I de Portugal, último descendente da dinastia galaico-burgundia, que reinou em Galiza entre os anos 1369-1371, até que os exércitos castelhanos finalmente terminaram por conquistar o Reino galego. As filhas de Pedro I, Constança e Isabela, foram levadas a salvo e casadas respectivamente com John of Gaunt e com Edmund of Langley, filhos do Rei Edward III Tudor de Inglaterra e irmãos do Príncipe de Gales, que tinham lutado junto às tropas galegas na Batalha de Nájera. Graças a este casamento, o Reino de Galiza considerou a John of Gaunt, Duque de Lencastre, como legítimo heredeiro da linhagem do Rei Pedro I. O Duque de Lancaster chegou a ser regente do Reino de Inglaterra e ajudou militarmente a Portugal na Batalla de Aljubarrota, o 14 Agosto 1385, derrotando uma vez mais à coligação inimiga castelhano-francesa. Depois da vitória em Aljubarrota, o Duque de Lencastre deixou a regência de Inglaterra e se embarcou com destino a Galiza em sua qualidade de legítimo herdeiro da linhagem do Rei Pedro I. O dia 25 Julho 1386, dia do Santo Padrão de Galiza, o Duque de Lencastre chegava ao porto de Corunha com sua família -a princesa Constança e suas filhas- e com um exército de 1500 lanças e arqueiros, sendo bem-vindos e aclamados como reis pela população. Os castelhanos correram imediatamente a aliar-se com os franceses uma vez mais para defrontar à renovada aliança galaico-britânica. A aliança atlântica tinha ganhado as decisivas batalhas de Nájera e Aljubarrota, e agora tudo estava disposto a ir pela terceira. Esta terceira vitória sobre os castelhanos devolveria ao Reino de Galiza seu histórico controlo dinástico sobre os tronos vizinhos de Leão e Castela. Mas na primavera do ano 1387 o exército do novo governante de Galiza foi desastrosamente contaminado de Peste Negra pouco antes de entrar em batalha contra a coligação castelhano-francesa. Dizimado pelas baixas e doenças, sofrendo de "grande mortandade" nas suas tropas, o Lencastre não teve mais remédio do que aceitar negociações de paz com o novo rei Juan I de Castela. A aliança atlântica sempre tinha sido mais forte no campo de batalha, mas por causa da peste ou por regicídio bastardo as guerras se tinham decidido longe do campo de batalha. As conseqüências políticas desta perda foram nefastas para Galiza. O reino ficou gravemente debilitado e os castelhanos aproveitaram a situação para a Doma y Castración que deixaria á Galiza lastrada nos Séculos Escuros. O içado da bandeira no 3 Abril, dia da vitória na Batalha de Nájera, recorda positivamente a um Reino de Galiza lutador e ambicioso, que apostava para ganhar, e que ganhou graças à aliança atlântica com portugueses e britânicos, uma aliança atlântica que continuou repetindo-se na batalha de Aljubarrota e na campanha do Duque de Lencastre.

Dezembro 17 - Execução de Pardo de Cela, começo dos Séculos Escuros, 1483:
O Reino de Galiza tinha perdido duas guerras cruciais, primeiro apostando por Pedro I e depois pelo Duque de Lencastre. As repercussões políticas desta dupla perda foram muito graves. Na prática, Galiza ficou sem rei proprio, numa situação de desgoverno de facto: os sucessivos reis castelhanos Juan I, Enrique III, Juan II e Enrique IV governavam para Castela mas se desentendiam de governar Galiza porque careciam de autoridade efetiva no reino galego. Nenhum daqueles reis castelhanos, por exemplo, pôs nunca um pé nem assomou a cabeça em território galego. Galiza se tinha convertido num reino à deriva, sem rei nem lei, governada desordenadamente por um múltiplo mosaico de nobres que tinham perdido enormes recursos em duas ambiciosas guerras que resultaram em dois fracassos ruinosos, e que precisavam mais finanças para recuperar poder e capacidade de influência política e militar. A situação fáctica de desgoverno e de esvaziamento de autoridade permitiu uma espiral generalizada de insegurança e delinquência que terminou num período de Guerra Civil conhecido como as Guerras Irmandinhas. O Marechal Pedro Pardo de Cela, executado em Mondonhedo o 17 Dezembro 1483Desde 1431 até 1469, a Guerra Civil Irmandinha enfrentou a galegos contra galegos, principalmente a parte das classes médias e baixas galegas contra parte das classes médias e altas galegas. O bando irmandinho ganhou a primeira parte da guerra e provocou o exílio das elites galegas fora de Galiza. Os principais nobres de Galiza -o Conde de Lemos, o Conde de Soutomaior, o Marechal Pardo de Cela e a cabeça da Igreja Galega, o Arcebispo Fonseca- foram acolhidos pelo Reino de Portugal. O Marechal Pardo de Cela era o genro herdeiro dos estados dos Lemos (naquele tempo a linhagem nobre mais importante do país), um homem com ambição e o melhor situado para tomar a liderança de um reino de Galiza carente de rei. No ano 1469, com a ajuda do Reino de Portugal, os nobres galegos contra-atacaram militarmente e derrotaram definitivamente aos irmandinhos. Mas a Guerra Civil irmandinha não beneficiou a ninguém e todas as partes saíram perdendo. A guerra tinha danado enormemente à economia do reino e tinha deixado ao país gravemente exausto e indefeso por culpa do mais de um cento de castelos que os irmandinhos destruíram durante a Guerra Civil. O Marechal Pardo de Cela compreendeu que a guerra tinha deixado ao reino em situação crítica e se mostrou muito enfadado com seus vassalos. A nobreza galega, já fatigada depois de dois séculos de progressiva perda de poder político e militar, recebeu com a Guerra Civil Irmandinha um duro golpe que a deixou ainda mais débil e vulnerável. E ainda assim, os nobres galegos fizeram um último esforço para recuperar seu histórico controlo político da dinastia real. Foi durante a guerra sucessória ao trono de Castela, entre 1475-1479. Os castelhanos apoiaram a Isabel 'La Católica' e Fernando de Aragão, representantes de uma união entre meseta e mediterrâneo. Os galegos apoiaram a Juana 'Beltraneja' e Afonso V de Portugal, mais a favor dos interesses atlânticos. O bando castelhano-mediterrâneo ganhou em Castela mas não na Galiza, e os galegos se negaram a aceitar a Isabel 'La Católica' e Fernando de Aragão como reis. A liderança militar galega foi assumida principalmente pelo Conde Pedro 'Madruga' de Soutomaior e sobretudo pelo Marechal Pardo de Cela, herdeiro dos extensos estados dos Lemos. Muito debilitado por culpa da Guerra Civil Irmandinha, e com praticamente todas suas defesas militares destruídas, o Reino de Galiza acabou sendo conquistado pelos exércitos castelhano-mediterrâneos com "crueldad, y era entonces necesaria; y por eso se hacían muchas carnecerias de hombres". O último em cair foi o Marechal Pardo de Cela, no ano 1483, traído por um dos seus no Castelo da Frouxeira, mas nunca derrotado em batalha após oito longos anos de oposição armada aos 'Reyes Católicos' de Castela e Aragão. O Marechal tinha demonstrado seu natural talento militar e de liderança politica desde a Guerra Irmandinha. O Marechal era o senhor das terras britonienses e o genro herdeiro dos estados dos Lemos, e como tal, seria um dia o maior nobre de todo o Reino de Galiza. O Marechal era um home resoluto que em todo caso soube liderar as causas galegas que considerou melhor para os interesses políticos do Reino galego. Para os 'Reyes Católicos' de Castela e Aragão, O Marechal era um perigoso rival político a eliminar. O dia 17 Dezembro 1483, o último defensor da soberania do Reino de Galiza era decapitado por ordem dos reis castelhanos em execução pública na praça de Mondonhedo, adiante de seu povo. Segundo a tradição, a cabeça do Marechal marchou rodando como um santo até chegar à porta da Catedral, ao mesmo tempo que gritava "CREDO!, CREDO!, CREDO!". O dia 17 Dezembro 1483 era executado o último líder galego com ambições políticas galegas e começavam os Séculos Escuros, numa estratégia planificada desde a corte de Castela que o cronista cortesano e inquisidor Jerónimo de Zurita denominou "Doma y Castración del Reyno de Galizia".

Janeiro 14 - Acolhida galega dos refugiados irlandeses da Batalha de Kinsale, 1602:
Irlanda, ano 1592. O conde Hugh O'Neill, liderando o que ainda ficava da nobreza gaélica, decidiu rebelar-se contra a ocupação inglesa na Guerra dos Nove Anos. No ano 1600, o abade do convento dos franciscanos de Santiago de Compostela era nomeado Arcebispo de Dublin, e o rei das espanhas Felipe III decidia enviar um contingente militar a Irlanda com a intenção de vingar-se dos ingleses pelo ridículo de sua Armada Invencible de 1588. No ano 1601 saíam do porto de Corunha com destino a Irlanda vários contingentes de tropas dos reinos de Galiza e de Castela. Parte das tropas capitaneadas pelo castelhano Juán de Águila se perderam no atlântico e parte foram capturadas pelos ingleses ao desembarcar em Irlanda. A Batalha de Kinsale, na que combaterom tropas galegasEm contraste, um contingente de tropas galegas capitaneadas pelo santiaguês Alphonso Ocampo juntou suas forças com as do irlandês O'Donnell em Castlehaven e depois se dirigiu ao encontro do exercito inglês no lugar de Kinsale, perto da cidade de Cork, onde entraram em batalha lutando ao lado dos líderes da rebelião, os condes O'Neill e O'Sullivan. "O'Campo" lutou bravamente e foi qualificado de "gallant leader" por Thomas D'Arcy McGee na sua Popular History of Ireland. Mas os reforços não foram suficientes e a rebelião irlandesa foi derrotada na Batalha de Kinsale, com conseqüências desastrosas para o Eire. Igual que passou na Galiza com a Doma y Castración, o que ficava da derrotada nobreza irlandesa ou foi executada ou teve que abandonar o país antes de ser capturados. Os estados dos nobres irlandeses foram confiscados e repartidos entre a nobreza inglesa. Irlanda caía nos seus Séculos Escuros. Começou então um exílio em massa de famílias de nobres rebeldes irlandeses que fugiam da repressão inglesa. Emigrando principalmente desde os portos de Galway e Waterford até o de Corunha, o Reino de Galiza foi o primeiro lugar de chegada daqueles milhares de refugiados, muitos dos quais decidiram ficar a viver nesta terra, que tanto lhes recordava à que tinham tido que abandonar. Um destes novos gaélico-galaicos era o próprio O'Donnell, que escapou de Castlehaven o 6 janeiro 1602 e chegou a Corunha no 14, onde foi recebido com todas as honras. Um dos primeiros atos de O'Donnell foi de "ir visitar la Torre de Betanzos [faro de Corunha], desde donde, segun leyendas bárdicas, los hijos de Milesius salieron en la busqueda de la Isla del Destino [Irlanda]". Era o ano 1602, quase três séculos antes de que o Bardo galego Eduardo Pondal desse justa homenagem ao rei celta Breogão no hino nacional galego- e O'Donnell era levado a visitar o lugar desde o que seus antepassados sairam para o Éire. Com Corunha, Santiago de Compostela foi outro centro importante de acolhida de refugiados. Em Santiago se fundou no ano 1603 o célebre "Colégio de Irlandeses", criado para educar aos filhos dos nobres emigrados a Galiza, entre eles os descendentes do clã dos O'Sullivan. Comemorando o 390 aniversário da ajuda galega ao povo irlandês, em 1992 o mundialmente famoso compositor Bill Whelan, autor de Riverdance, estreava em Corunha a sinfonia From Kinsale to Corunna, com a apoteósica atuação dos melhores músicos tradicionais de Irlanda acompanhados pelo grupo galego Milladoiro e pela Orquestra Sinfônica de Galiza. Igual que os irlandeses se lembram e reconhecem a ajuda historica que recebieron dos galegos naqueles tempos difíceis seus, Galiza deve lembrar-se daqueles centos de galegos que deram sua vida pela liberdade irlandesa em Kinsale içando a bandeira o dia 14 Janeiro, data da chegada do nobre líder O'Donnell a seu novo país, Galiza.

Junho 8 - Batalha de Ponte San Paio: Libertação de Galiza da ocupação francesa, 1809:
Tropas escocesas  do regimento "Black Watch" na Batalha da Corunha, em ElvinhaNo ano 1808 o ditador francês Napoleão Bonaparte invadiu os reinos de Espanha e o reino de Portugal como parte de sua ambiciosa estratégia militar de dominação total do continente Europeu. O Reino de Galiza não reconheceu a ocupação militar francesa e criou um governo galego com funções administrativas, econômicas, militares e diplomáticas próprias: a Junta Suprema do Reino de Galiza. Durante um ano, e com capital em Corunha, Galiza voltou a autogovernar-se como um estado soberano. As primeiras medidas da nova autoridade galega foram de estabelecer relações diplomáticas internacionais com Grã-Bretanha e Portugal, e de coordenar as ações de defesa militar de Galiza. Rapidamente os britânicos acudiron a ajudar aos galegos enviando um contingente de 14.000 homens comandados pelo escocês John Moore. Britânicos e galegos se dispuseram a defender Corunha do ataque do exército de Napoleão, que enviou a Galiza a seu melhor militar, o Marechal Soult, 'Generalissimo de France'. John Moore morreu na Batalha de Corunha, em Elvinha, o 16 janeiro 1809 junto a outros 8.000 soldados britânicos, e a cidade foi ocupada temporariamente pelas tropas francesas. O general escocês foi enterrado nas muralhas da cidade, onde Rosalía de Castro lhe dedicou o poema "Cuan lonxe, canto das escuras nebras, dos verdes pinos, das ferventes olas qu'o nacer viron!". Morto Moore, o comando das tropas britânicas foi tomado pelo irlandês Arthur Wellesley, Duque de Wellington, uma das mais altas figuras militares do século XIX. Re-organizadas em seguida as forças galaico-britânicas, uma tropa de 1.600 estudantes galegos -o Batalhão Literário- saía de Santiago de Compostela marchando ao compasso do antigo Hino de Galiza, tocado na gaita em provável inspiração dos regimentos do general escocês Muir, que levavam gaiteros com eles na Batalha de Corunha. O 8 Junho 1809 o exército galego, ajudado por tropas britânicas e irlandesas, liberava Galiza da ocupação francesa na Batalha de Ponte San Paio. O irlandês Wellesley, Duque de Wellington, fazia homenagem posterior a seus soldados galegos dizendo: "Guerreiros do mundo civilizado, aprendei a sê-lo dos indivíduos do exército que tenho a sorte de comandar… Espanhóis, dedicar-vos todos a imitar aos inimitáveis galegos". O 8 Junho 1809, em Ponte San Paio, o Reino de Galiza era o primeiro reino europeu em liberar-se da ocupação francesa. Seis anos mais tarde, em 1815, foi o próprio Duque de Wellington como comandante-em-chefe das forças aliadas o que finalmente terminaria o trabalho começado em Galiza, derrotando a Napoleão em Bélgica, na Batalha de Waterloo.

Abril, 26 - Batalha de Cacheiras e os Mártires da Liberdade ou de Carral, 1846:
Monumento aos Mártires da Liberdade do 26 Abril 1846 em CarralO século XIX foi o século da Galiza liberal e republicana. Anos depois da coligação galaico-britânica contra os franceses, no ano 1815 Juan Díaz Porlier constituiu uma Junta de Galiza contra o rei absolutista Fernando VII. Quando aquele rei espanhol se fez com o poder em Madrid, Porlier -então Presidente da Junta- foi acusado de rebelião e foi executado. Cinco anos mais tarde, em 1820, o Reino de Galiza se convertia no principal apoio à Revolução Liberal de Rafael de Rego, e a nova Constituição antimonárquica era rapidamente aprovada em Corunha, Ferrol e Vigo. Três anos depois, o exército francês intervinha militarmente invadindo Espanha para derrocar ao governo liberal e implantar ao rei absolutista Fernando VII. Devolvida uma vez mais a monarquia a Madrid, os galegos fizeram uma terceira tentativa liberal e republicana durante a ditadura regente do General Narváez. A rebelião se iniciava o 2 Abril 1846. As primeiras forças militares galegas em declarar-se não sujeitas à autoridade da monarquia espanhola eram os do Batalhão de Lugo, comandados pelo Coronel do Estado Maior da Capitania Geral de Galiza, Miguel Solís. O resto de Galiza se somou à rebelião liberal durante os dias seguintes. O dia 15 Abril se contituía em Santiago a Junta Superior do Reino de Galiza, com Pío Rodríguez Terrazo como Presidente e com Antolín Faraldo como Secretário. A Junta do Reino de Galiza redigiu um manifesto programático de restituição das liberdades políticas galegas e na contramão do absolutismo espanhol, que naquele tempo considerava a Galiza como uma colônia mais entre suas possessões. Madrid respondeu às demandas galegas enviando um numeroso exército com ordens de achatar a rebelião galega. O exército da Junta do Reino de Galiza, comandado por Miguel Solís ainda que inferior em efetivos, foi eventualmente derrotado na Batalha de Cacheiras no 23 Abril 1846. Parte das tropas galegas se reagruparam em Santiago de Compostela, onde lutaram contra o exército espanhol nas ruas e nos edifícios da cidade, atrincheirando-se finalmente no mosteiro de San Martinho Pinário, num episódio que recorda à rebelião irlandesa do 29 Abril que se atrincheirou na Post Office de Dublin. Sem via de saída, os rebeldes galegos acabaram por render-se às tropas espanholas. Mas o exército espanhol, temendo uma sublevação geral da população, não se atreveu a deixar em Corunha nem em Santiago aos populares rebeldes capturados. Assim, cobardemente e a escondidas, doze dos principais líderes e militares galeguistas foram levados o 26 Abril a Carral, longe das principais cidades galegas, para ser executados por aquelas tropas espanholas enviadas desde Madrid para achatar as demandas legítimas da Junta do Reino de Galiza. O Coronel Miguel Solís foi fuzilado na igreja de Paleo, e o resto dos líderes galegos foram passados pelas armas no bosque de Fraga do Rei. O pároco, que presenciou o fuzilamento, escreveu na ata de difunción: "Espetáculo horroroso. Triste Memória". Os corpos foram enterrados em fossas sem nome na igreja de Paleo. Anos depois, a Liga Galega da Corunha levantou um monumento em Carral em memória aos Mártires da Liberdade. No monumento aparece o Santo Graal do Reino de Galiza e uma inscrição "Aos Mártires dá Liberdade mortos o 26 Abril 1846".


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